Ambiente. Silêncio. Entrega. Cuidado.
Criar ambiência é se fazer presente. É observar, cuidar e, sobretudo, saber dar espaço para que um pedacinho do céu chegue ao mundo.
Nossa sociedade sempre soube celebrar o fim, mas e a chegada da vida? Por que não fomos ensinados a celebrar o nascimento com o mesmo respeito e reverência? Assim como o fim da vida, o início também merece celebração. Porque o nascimento não é um momento que se repete. É singular, único, irreversível. Ele deixa marcas. É o encontro com a força mais primitiva e extraordinária que existe: a própria vida.
Se pudesse traduzir o que é parir em uma única palavra, seria PRESENÇA. Estar inteira naquele instante, entregar-se ao processo, confiar no corpo e se conectar com a vida que chega. É permitir que, por alguns momentos, o mundo lá fora deixe de existir para que tudo o que importa aconteça ali.
E quem participa desse momento precisa compreender a grandeza do que está presenciando. Estar presente não significa ocupar o espaço, conduzir cada movimento ou preencher cada instante com palavras. Às vezes, a forma mais profunda de cuidar é simplesmente saber estar. E, entre tantas responsabilidades dos profissionais que acompanham o parto e nascimento, o silêncio e a ambiência precisam ocupar um lugar de destaque.




Sob o olhar da medicina e da enfermagem, falamos em Hands Off: não tocar, respeitar o corpo e o tempo de quem está parindo. Conceituamos também o termo Obstare, estar ao lado. Não à frente, não no lugar de quem dá à luz. Nosso espaço é cuidando, amparando e confiando no corpo da mulher. O foco não é a doença, o foco são as pessoas. Cuidamos de pessoas.
Porque, muitas vezes, o processo fisiológico do parto pede exatamente isso: esperar, silenciar e cuidar. Não confundir presença com intervenção, nem cuidado com excesso de ação. Em um mundo acelerado, desacelerar, silenciar e contemplar a presença no aqui e agora pode ser desafiador. É preciso muita consciência e prática sobre humanização.
A tecnologia tem um papel fundamental e pode ser indispensável diante de intercorrências. Mas nenhum recurso tecnológico substitui o olhar atento, a mão que acolhe quando necessário, a presença que transmite segurança e o cuidado humano que respeita a delicadeza desse encontro.
Os profissionais que acompanham o parto e o nascimento, enfermeiras obstétricas, doulas, médicos, fotógrafos e todos aqueles que têm o privilégio de testemunhar esse instante, necessitam de atenção aos detalhes. À luz que invade ou acolhe. À voz que interrompe ou tranquiliza. Ao disparo da câmera. Ao movimento que perturba ou respeita. À presença que protege ou ocupa.
Que não nos falte sensibilidade para compreender a grandeza desse instante. Que não nos falte preparo para saber quando agir e sabedoria para reconhecer quando apenas estar presente é o melhor cuidado.
Porque, diante da vida que chega, há momentos em que a maior demonstração de cuidado é silenciar, permanecer ao lado e permitir que o processo aconteça.
A ocitocina, tão importante para o nascimento, encontra no ambiente seguro, na penumbra, no afeto, na intimidade e na tranquilidade condições favoráveis para sua liberação. A ocitocina é do amor. O corpo precisa se sentir seguro para se entregar. E o silêncio, nesse contexto, não é ausência: é espaço. É respeito. É cuidado.
Escolher quem estará nesse momento é o primeiro presente que o seu bebê receberá nesse mundo.
E nascer só se nasce uma vez.
Toda a minha reverência às mulheres que atravessam a experiência de parir.
Com amor,
Ester Razzolini
Enfermeira
Especialista em Ginecologia e Obstetrícia
Mestra pela UFSC








