Eu gosto muito de fotografias em preto e branco. Não só pela estética, mas pelo que acontece quando a cor deixa de ocupar esse espaço.
Sem o azul da roupa, o vermelho de uma luz, o cinza do cobertor ou qualquer outra informação de cor, o olhar vai para outro lugar. Para a expressão, para as mãos, para a textura da pele, para a luz, para a relação entre as pessoas.
O preto e branco simplifica a imagem, mas não simplifica o que está acontecendo nela. Pelo contrário, ele pode trazer uma força diferente para momentos que já são intensos por natureza. Um abraço, uma lágrima, um olhar, uma mão apertando outra durante o trabalho de parto. Pequenos gestos ganham mais presença quando não existe tanta informação disputando a atenção.
Também gosto do tempo que o preto e branco parece carregar. Tem algo nele que nos afasta um pouco do agora e, ao mesmo tempo, nos aproxima daquilo que realmente importa. Acho que por isso, algumas fotografias em preto e branco tenham essa sensação de permanência. Elas não dizem exatamente quando aquilo aconteceu. Elas deixam a emoção ocupar esse lugar.




No meu trabalho, principalmente nos nascimentos, isso faz muito sentido. A fotografia não precisa mostrar tudo para contar uma história. Às vezes, basta mostrar o essencial.
Isso não significa que eu queira apagar a cor da história. Pelo contrário: acho muito importante que algumas imagens permaneçam coloridas. A cor também guarda memória.
Ela ajuda a lembrar como era o ambiente, a luz que entrava pela janela, a roupa que alguém usava, os detalhes daquele lugar onde tudo aconteceu. São informações que, com o passar dos anos, podem desaparecer da lembrança e que a fotografia consegue devolver.
Por isso, gosto de ter as duas coisas na mesma história. Algumas imagens em cores ajudam a situar. Fazem a gente voltar para aquele lugar e lembrar de como tudo era.
O preto e branco, então, pode vir para outra camada da lembrança, para aquilo que estava acontecendo dentro daquele espaço. Para deixar de lado algumas informações e dar mais força àquilo que, para mim, merece permanecer em primeiro plano.
No fim, cor e preto e branco não precisam disputar espaço. Cada um acrescenta uma camada diferente à história.
E acho que é justamente essa combinação que faz uma fotografia contar tanto. Uma imagem nos lembra onde estávamos, outra nos faz lembrar o que sentimos. E, juntas, elas ajudam a reconstruir não só o momento, mas a maneira como ele foi vivido.








